quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Ao tempo


Vai o simplório vivente a vida seguindo
Ou talvez contar tempo não lhe importe
Reflete com seus botões: o viver é lindo
Além de tudo sou um homem com sorte.

Geralmente o tempo não o vê desse jeito
Ele passa, leva amoque tudo pela frente
Moderação nem de longe é meu preceito
Deixo viver, mas não ligo prá essa gente

O tempo somente manda, nunca solicita
Tem aquela absoluta e infinita arrogância
Então ele sequer deseja estar bem na fita.

Mas jamais conte com qualquer vacância
Porque o tempo somente em si acredita
Obnubila entes, não lhes dá importância.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Lima Barreto


Pois Lima Barreto construiu um legado
Ousou romancear com idioma castiço
Liberto de amarras, um escritor afiado
Impôs-se às letras, não foi submisso.

Criando Policarpo Quaresma, o justo
Alcançou os píncaros da imortalidade
Romance de argumento mui robusto
Policarpo era o esteio da brasilidade.

Orgulhava-se deste vasto Pindorama
Que para existir motivos lhe fornecia
Ultrajava-lhe algum erro que inflama
Achava nossa língua cheia de poesia.

Render-se ao erro, Policarpo jamais
Ele, até morrer pelo idioma, poderia
Sempre viveu pelos valores nacionais
Mesmo sabendo que burrice é porfia
Ainda que com tais crises existenciais.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Caminhaço


O meu caminho somente eu traço,
Moderado, não vou fazer façanha.
Posso querer passar por um Paço,
Ou mesmo escalar uma montanha.

Se andar para frente insisto e abraço
E a transpiração no rosto me banha
Não importa tenho régua e compasso
Que me incentiva a formidável sanha.

Com determinação e vontade de aço
Obstáculo piramidal não me estranha
Continuo obstinado nesse meu traço

Como ataca nas águas uma piranha
Em momento algum me torno lasso
Vou até ao final de minha campanha.

domingo, 8 de novembro de 2015

Às estrelas



Seu olhar por trás da coluna ardia
Obliterou aquele solo de clarineta
Blusão jeans usado que me cobria
Foi rasgado pela acúlea baioneta.

Inda agora na soledade da estação
Levando a lira de meus vinte anos
Amanheço sob aquela constelação
Mariposas assim debaixo dos panos.

Exalo conhaque, bebida requentada
Nesta cidade de mui amontoado lixo
Tudo supões aquarela desnaturada
Onde o destino não encontrou nicho.

Sabendo a tais vapores de Yoko Ono
Deixo as minhas colheres flambadas
Apenas verdade nenhuma tem dono
Sob as nobres estrelas filamentadas.

E não me venha com excesso de zelo
Saberá cada vivente o que lhe apraz
Terá exatamente como assim fazê-lo
Resulta que disso compreensão terás.

Então que cada um sole a sua guitarra
Leve seus sonhos a caminhar sozinho
Apenas ao existente cada um se agarra
Sabendo que este mundo é comezinho.

sábado, 7 de novembro de 2015

Flor é tudo


Simplicidade não é uma condição
A qual se ilumina depois desliga
Ao mero comprimir de um botão,
Nascemos simples há quem diga.

Não é simplória, é simples a flor
E ela com simplicidade convive
Seja colorida ou possua candor
More ela num jardim ou declive.

Lógica existe numa flor contudo
Que a nós cabe apenas admirar
Seja por feição ou por conteúdo,
Sua beleza não se pode ocultar.

Então na bela flor eu me escudo
Para frisar simplicidade secular.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Ao amor


De que raro material o amor se faz?
Em qual forja fora ele então fundido?
Quando a resposta não nos satisfaz
Um lapso se abre sem algum sentido.

E, no entanto, para sempre continua
É como se nada o atrapalhe jamais
Fazendo os namorados curtirem a lua
E unindo para sempre até desiguais.

Impetuoso, o amor move montanha
Tem potência para moldar o universo
Ousado todos os tempos ele ganha
O aprisiona o poeta no meio do verso.

Amor pra sempre vai continuar assim
Mexendo nas entranhas dos amantes
Ou mesmo provando que não é ruim
Revendo o agora, o depois e o antes.
?

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Acróstico

O tempo, rostos e corpos ele arranha
Vento que apaga até as fotografias
Enquanto quem recorda nada ganha
Nele está a ruína de velhas poesias.

Deixa sinal indelével em nossas cãs
Avança amoque para incerto futuro
Vive ligando os hojes aos amanhãs
A contemplar as inscrições no muro.

Logo o pretérito, o futuro e o presente
Dançam ao ritmo do tempo imperioso
Ou se rende a ele ou seu peso sente
Tanto é esse tempo um ente teimoso.

E tudo que existe um dia acaba enfim
Menos o tempo que a existir continua
Pessoas e coisas vão pra sempre sim
Onde a vida existia a terra acaba nua.