quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Acróstico


Ouso carregar o mundo nas costas
Um ente sozinho sou, quebrei laços
Tenho as dores que nem tu gostas
Refugio-me nos pensares escassos.

Onde caminho, são baixas apostas
Largado, desprezado, sem abraços
Apenas perguntas, cadê as repostas?
Deste mundo somente afagos lassos.

Outros levam essa tal vida augusta
Do lado aconchegante desse muro
Aqui na rua eu vivo e nada me custa
Vejo a estrada sem qualquer futuro

Inclusive as vezes tudo isso assusta
Do lado de cá só se enxerga o escuro
Antevendo que esta vida não é justa.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Ao efêmero



A dialética é aquela ciência não exata
Há nela a ser desvendado um mistério
E se nenhuma coisa determina na lata
Remete-nos a pensamento mais sério.

Mas se a gota deslizando nos arrebata
É porque adotamos um diverso critério
Tanto que a hermética gotinha se mata
Indiferente às pessoas deste planisfério.

Cada evento tem seu palco nesta vida
Assim tal como se divide essa gotinha
Garanto que ela percebera ser querida.

Ou, talvez, nenhum propósito ela tinha
Tentando somente nunca ser percebida
Afinal nasceu, viveu e morreu sozinha.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Que bicho sou eu?

O mundo aqui em cima devagar passa
Devagar e constante a melhor premissa
Julgando que quase ninguém me caça
Subo carregando a minha macia peliça.

Viver vagarosamente, saibam, é massa!
Só me alimentando de folhas de hortaliça
E nada haverá portanto que aqui se faça
Que minha vontade de não acelerar atiça.

Se o caçador vem atrás de mim, embaça
Porque ele é persistente naquela cobiça
E nesta floresta a fauna se torna escassa.

Sou o mamífero que não entra nessa liça
Onde qualquer bicho selvagem se enlaça
Da ordem Folivora, sou o bicho-preguiça.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A Fábio

Acróstico em pretenso gauchês a Fábio, meu amigo de querências tão remotas que já nem sei se nascemos juntos.

Macanudo de boa cepa de Rio Pardo
Amigo de seus amigos esse gaudério
Relho e soga na mão, visão que guardo
Charla e mateia: levando tudo a sério.

Oigalê! De pala e bombacha no Pingo,
Sacudido e tapejara, este vivente guapo
Farropilha cuera de segunda a domingo
África comete sem garganta, sem papo.

Boleadeira não é ilhapa nem estranha
Ixê! lhe caem do bolso butiás, as vezes
Orre diacho! Se na merda rival se banha!
Tenência é para os borrachos e as reses.

Empantufa-se de seus filhos este vivente
Inclusive de Marilene, a prenda preciosa
Xucro se torna se mexem com sua gente
Enquizilha, então acaba qualquer prosa.

Indio velho desse mundão sem porteira
Riograndense de russilhonas blasonadas
Aboletado no Capão da Canoa de cadeira
Despacito, tropeia lesmas nas calçadas.

Emboleia-se, as vezes, no lento caminhar
O que não limita a boa vida deste colhudo
Lento, sempre encontra seu próprio lugar
Inclusive desta existência ele sabe tudo.

Vaqueano, o vivaracho vareia de vereda
E trote largo, deste cabo véio não é praia
Indiferente, seja numa lomba ou ladeira
Risca rua Marco, tal como não fosse raia
Afroxar jamais, nem que o mundo queira.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O outro lado


Porque nem sempre a vida é justa
Há mais coisas da janela prá fora
Do que acreditar nelas nos custa
De quanto a pura razão implora.

A chuva confunde os neurônios
Que outra coisa não é que pingos
Então traz a tona seus demônios
Nas alegres tardes de domingos.

Vocábulos ávidos na sua caneta
Completos de metáforas insanas
Ainda que ao ignoto nos remeta
Inventam cacófatos bem bacanas.

Então nestes poemas de opereta
Ocultam-se conotações sacanas.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Que bicho sou eu?

Sou quelônio, um bicho bastante blindado
Na minha espécie, moradia ninguém aluga
Vagaroso, vivo muitíssimo bem, obrigado
Quando envelheço o meu pescoço enruga.

Alguns até me acham um pouco engraçado
Porém não me apresso se algo me estuga
Afinal, costuma chegar tarde um apressado
Então correr amoque dá impressão de fuga.

Apesar de lento, sou um animal antenado
Tenho quatro patas e jamais usarei peúga
Que não tem cabimento no casco apertado.

Como corrida jamais minha vontade suga
Não fico desafiando o vento, esse celerado
Porque afinal, sou encouraçada tartaruga.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A vida continua

O ano se vai e acorda nossa velhice
Que agora vai vivendo de esperança
Um dia no passado alguém me disse
E o tempo, de tanto aqui estar cansa

Vai velho ano, que a vida já balança
Inteiro virá outro, você mera chatice
Enquanto pra nós só apraz mudança
Ressalvando o que parecer sandice.

É lucro para nós, velhos, viver mais
Logo, benvindo o ano que desponta
Um de esperanças, lidas e que tais.

Como a expectar bem além da conta
Recheado de momentos muito legais
O que existir melhor este ano aponta.