sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A morte um dia virá

No fim restarão aquelas almas chorosas,
que descobriram fim dos tempos de repente;
embora este, tão cantado em versos e prosas,
sempre estivesse nos nossos dias presente.

O homem sabe do fim, embora não comente,
por isso suas virtudes ditas corajosas;
que, parece, o mantém comandando o ambiente,
como a plantar um bonito jardim de rosas.

O homem, Don Quixote, de tristonha figura,
o qual caminha por aí amoque num delírio,
e goza desta vida estimulante e bela.

Vivendo, livre sem pensar na sepultura,
porque viver e morrer nunca foi martírio,
a morte porém, um homem jamais anela.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

À morte

A morte nivela, os valores despedaça,
porque ricos e pobres a um ignoto envia;
primeiro, o corpo preso sob a laje fria,
mas alma, a vagar por algum ignoto passa.

Some da percepção quando noite, ou se dia,
há certa indefinição, uma clareza escassa;
e terrível medo pela existência grassa,
numa indizível eternidade vazia.

A tal ceifadeira desmancha nosso norte,
então, empalma tudo que existir possa,
e certamente nada depende da sorte.

Escolha dalgum destino sequer é nossa,
porque a última palavra será da morte,
da qual todo ser vivo leva dura coça.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

No espaço sideral

A Terra, pequena rocha viva no espaço,
tímida, rodando num cosmos iracundo;
vai perdida naquele negror tão profundo,
onde as leis mecânicas nada deixam lasso.

Mas, vaidosa, por ser o único vivo mundo,
estende Gaia, às criações, amplo abraço;
acolhendo cada ser vivo em seu regaço,
dando a todos um acolhimento fecundo.

Planeta sóbrio de extremada solidez,
ao longe seu azul cerúleo, sincero brilha,
a causar inveja em outros astros talvez.

Vai sem nem ligar seguindo uma velha trilha,
pouco se importando com sua pequenez,
dentro de regra estrita de certa cartilha.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Criando

As vezes, tudo que sei a meus versos empresto,
e minha mente, até a gramática devasta;
e um soneto tranquilo, fluente e honesto,
tranquilamente me vejo pondo na pasta.

Registro portanto, cada vírgula ou gesto,
enquanto minha criação nunca se arrasta;
porque é desse modo que me manifesto,
e aquilo que sei fazer em geral me basta.

E da gramática minha vontade arranca,
produto de minha autoria que não vendo,
porquanto me seduz apenas o fazer.

E, afirmo, tudo feito de maneira franca,
mesmo que o resultado pareça horrendo,
garanto que essa feitura me deu prazer.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A Esfinge meteorológica

Olha as alturas, este observador terreno,
e, sonhando, transforma tudo em poesia;
já que vê no céu tanto mistério e magia,
e tanta enormidade que se acha pequeno.

Mas o firmamento não lhe faz um aceno,
que seja sério, ou que seja mera ironia;
mesmo apenas simples piscadela vazia,
ou cumprimento vão, destilando veneno.

E, por vezes este céu tornando-se fúria,
na fé dos homens violentamente, bate,
borrascoso, cidades e aldeias atinge.

Como a impingir à terra suprema injúria,
em um estranho unilateral combate,
mantendo-se misterioso igual esfinge.

domingo, 30 de setembro de 2018

No paleolítico

Medo primordial do homem, foi do escuro,
era onde espreitava uma real ameaça;
porquanto o Homo, com sua defesa escassa,
entre tanto perigo, não via futuro.

Se não se precavesse talvez a desgraça,
cercou-se de armas pra sentir-se seguro;
então evitar falecimento prematuro,
para dar seguimento à humana raça.

Tudo lhe era novo, como fosse um ensaio,
dependia dele aquela sobrevivência,
futuro do homem estava a sua mercê.

Apenas que não lhe caísse nenhum raio,
porque logo, lhe vinha ajuda da ciência,
a qual lhe responderia tudo e porquê.

sábado, 29 de setembro de 2018

Cultura

Não me pergunte o que é essa tal cultura,
a qual varia em conteúdo e também nome;
e que toneladas de neurônios consome,
contudo, que pela nossa existência dura.

Esse ente quase sempre objeto de procura,
e, quando encontrada, tal coisa jamais some;
independe de verbo, adjetivo e pronome,
traduz em nossa existência toda ventura.

Dizemos, frascos menores, grandes venenos,
mas a cultura, sequer ocupa espaço,
porém importa saber mais ou saber menos.

Que distingue homem culto de homem crasso,
uns, próceres, outros de saberes pequenos,
os quais passarão e sequer deixarão traço.